O paraíso não existe

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O marido estupra a mulher na noite de núpcias. Ela o ama, está feliz com o cenário em que passarão a primeira noite depois de casados, e ele, após uns goles de champanhe que foi aberto para comemorar o acontecimento, torna-se agressivo e violenta a própria esposa.

Por que?!

Ela iria consentir no sexo do amor, no sexo vivido em um cenário de beleza. Ela está feliz, seduz o marido, convida-o para o sexo.

Ela o quer, ela deseja seu homem.

E ele, num arroubo de violência, estupra a mulher. Ela fica com medo, pede que pare, ele torna-se agressivo, cala a boca.

O estupro é consumado.

O marido, depois de aliviado, larga a presa.

A esposa, em estado de choque, não consegue entender o recado do marido: você é minha, seu corpo me pertence, vou usá-lo ao meu prazer quando bem entender, você tem que se submeter, pois sou seu marido, tenho direitos absolutos sobre você, o seu desejo não conta, só conta o meu, e além de tudo, tenho mais força física. Cala a boca mulher, cala a boca.

 Ele já vinha dando mostras de violência, impulsividade, falta de consideração, falta de confiança. Havia jogado fora o celular que ela havia comprado. Fica evidente para quem quiser ler o que ele pensa dela: você não presta, você é frágil, qualquer homem pode te pegar, por isso não tenho confiança em você.

 Em outras palavras, a esposa não é uma pessoa, não merece consideração, muito menos respeito. É um objeto a ser dominado, submetido, humilhado.

Ele tem atração sexual por ela, porém além de objeto de atração sexual, o que ela representa para ele?

Uma surra alguns dias depois, leva a esposa ao hospital.

Por que ela perdoa o marido?

Palavras pronunciadas por ele, eu te amo, me desculpe, eu te amo, seriam ser suficientes para apagar a mágoa, a humilhação, a vergonha, a culpa que está sentindo?

Sentimentos muito fortes que destroem a auto estima, porém, rapidamente restaurada pelas palavras do marido: eu te amo, é por ciúmes, isso é prova de amor.

E assim vai ela, de auto engano em auto engano, sendo corroída internamente.

Este é o enredo da nova novela da Globo, O Outro Lado do Paraíso.

Muitas mulheres sentem culpa pelos abusos físicos e psicológicos que sofrem. A culpa é minha, não percebi que ele é muito ciumento, pois me ama muito. A culpa é minha, ele é imaturo, da próxima vez vou cuidar mais dele. Por conta da culpa, a mulher fica em silêncio, fica paralisada e fixada em um ciclo de violência da qual é difícil escapar.

Culpa do quê? Culpa em relação a quê?

Será essa a condição das mulheres que sofrem abuso e não conseguem sair dessa situação de sofrimento?

Será que, além da culpa, muitas mulheres suportam esses horrores por medo da solidão?

“Como a culpa se materializa? É subliminar. O jantar que eu não fiz, a roupa que eu vesti, a hora que eu cheguei. É sempre eu, eu, eu… A mulher está o tempo todo trazendo para si uma responsabilidade que está no outro. Ela própria se vê nesse papel”, afirma Aline Silveira, uma das idealizadoras do aplicativo Mete a Colher, app que conecta e aproxima mulheres, dando a elas força e coragem para sair de relações abusivas.

“Ninguém nunca pergunta sobre a atitude do homem, mas sim o que a mulher fez para merecer. Isso já é uma forma de responsabilizá-la pela violência sofrida”, reforça Renata Albertim, do mesmo coletivo.

Culpa que lhe é atribuída pelo fracasso do relacionamento, acusação que parte de si mesma ou de fora, de amigos, de familiares.

Uma das faces ainda mais cruéis da culpa é a violência sexual. Porque não basta ser violada, invadida, humilhada, a mulher ainda é responsabilizada pelo estupro que sofre.

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil.

 Muitas são assassinadas: não se trata de crime por excesso de amor, de paixão. Mas de dominação, de posse. Um crime de ódio.

Não se trata de desejo sexual. Trata-se de dominação, relação de poder, sentimento de posse, autoritarismo, machismo,intolerância e naturalização.

Para diminuir o número de estupros, há que haver punição. O estuprador que não é punido vai estuprar de novo, além de poder encorajar outros a praticar essa violência perante a impunidade.

 A punição é necessária, porém a justiça a esse respeito é elástica, depende do juiz. Ejacular nas pernas ou nas costas de uma mulher em um transporte público não é estupro para determinado juiz. Se isso acontecesse com sua filha, como ele julgaria?

No Brasil, a maior parte das mulheres não registra queixa por constrangimento e humilhação, ou por medo da reação de seus familiares, conhecidos e autoridades. Também é comum que o agressor ameace a mulher de nova violência caso ela revele a que sofreu.

Vamos acompanhar a protagonista, Clara, na novela O Outro Lado do Paraíso.

Vamos torcer para que ela consiga sair desse lugar de humilhação e sofrimento.

E torcer para que homens e mulheres, pensem e repensem sua atitudes frente à violência sexual.

A Globo, ao final do capítulo do sábado, divulgou o Disque Denuncia: 180.

 

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Mulheres que se arriscam demais

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Os jornais têm dado notícia de mulheres que, por meio de aplicativos de encontros, têm sido estupradas.

O que leva as mulheres a se arriscarem, desse modo, em um mundo sabidamente violento?

Ingenuidade?

Falta de informação?

Carência afetiva?

Crença em um príncipe encantado?

Medo da solidão?

 

As notícias de estupros estão em todas as mídias, notícias na televisão, facebook, novelas. O mundo está repleto de gente bem intencionada, mas também de predadores.

A pergunta não quer calar: por que a mulher se entrega desse modo?

Trocando em miúdos:

– será que a necessidade de ter alguém é tão premente, que não elas pensam nas consequências de seus atos?

– será que a autoestima é tão baixa, que basta uma migalha de atenção para que as defesas se desfaçam?

– será que a solidão é tão intensa, que algumas palavras, algumas promessas vagas são o suficiente para que se arrisquem?

– será que têm medo de serem consideradas chatas ou medrosas ou mandonas se exigirem um primeiro encontro às claras?

– será que têm medo que o homem se desinteresse se ela estabelecer algumas exigências?

– será que têm receio de exigir que o homem use camisinha por medo que ele perca o interesse?

– será que esquecem ou não sabem que podem ser contaminadas por doenças sexualmente transmissíveis? Sífilis, gonorreia, Aids, feridas nos genitais, verrugas (HPV), herpes, candidíase, corrimento vaginal.

Mesmo em encontros casuais, onde não se quer nada além de alguns momentos de prazer, o cuidado se faz necessário.

A não ser que se trate de mulheres que gostem do comportamento de risco, que se excitem ao se encontrarem em situações de domínio às quais só podem se submeter. Esses casos existem, é uma forma de prazer.

Essas mulheres provavelmente não se queixam, a não ser que tenham prazer em se fazer de vítimas. São pessoas que têm prazer em sofrer, as chamadas masoquistas.

Deixando de lado esses comportamentos bizarros, fiquemos nas que se arriscam e se machucam, as que aparecem nas notícias de jornal e as milhares de outras não sabemos.

O encontro amoroso é excitante, necessário, encantador: preservemos nossa integridade para podermos usufruir do que nos dá prazer e alegria.

 

 

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Entrevista com Tania Morales na CBN

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Nesta entrevista dada a rádio CBN, no programa Noite Total, a psicanalista Sylvia Loeb fala sobre o desafio de escrever sobre um universo tão diferente do seu e diz que nenhum dos personagens de suas histórias são reais, são todos produtos de ficção.

 Tânia Morales: o universo masculino retratado no livro tem um embasamento na realidade?

Sylvia Loeb: tudo que eu escrevo é baseado na realidade, mas uma realidade ficcionada. É só olhar em volta, ver as coisas que me inspiram. Hoje mesmo, vi uma mulher puxando uma carroça. Só isso pode virar uma história. Ou seja, o tema está ali, o que eu faço com isso é ficção.

TN: nenhum personagem tem relação com um paciente da senhora, com a realidade?

SL: essa pergunta é muito boa pois o fato de eu ser psicanalista e escritora pode trazer esse tipo de questionamento. Nenhuma história que conto está relacionada aos meus pacientes, de maneira alguma, pois tenho um compromisso ético com eles. Um paciente que vem me procurar, entregar suas angústias, suas verdades, sabe que vai estabelecer comigo uma relação de confiança que jamais poderia ser traída. Que jamais vai sair do consultório.

TN: então ninguém está retratado lá. Mas, de uma forma geral, as histórias a respeito dos homens partem da sua observação como psicanalista do comportamento masculino. Não é isso?

SL: na realidade, como são histórias ficcionadas nem sei se muitos homens vão se identificar com as histórias que eu conto. Foi um desafio para mim escrever sobre esse universo tão diferente, tão oposto do meu. Na realidade, o que eu escrevo é baseado no que eu imagino como muitos homens seriam ou se comportariam. São pequenos contos, às vezes pedaços ou cenas. Não é o retrato de um homem.

TN: é que tem questões ali que são muito masculinas. Ou pelo menos na nossa perspectiva feminina, a gente identifica. Não sei se os homens identificam. Por exemplo, essa coisa da racionalidade, do controle absoluto que se apresenta logo no primeiro conto (Adão). E uma ingenuidade quando se apaixona, capaz de desmontar qualquer coisa mais concreta.

SL: sim, eu concordo com você, mas melhor falarmos em padrões masculino ou feminino e não de gênero. Porque existem mulheres com um padrão muito masculino. Mas você tem toda razão, uma atitude mais racional, objetiva. E, ao mesmo tempo, uma ingenuidade na relação amorosa ou nas relações que implicam sentimentos. Na afetividade os homens são mais travados. Acho que tem a ver com nossa cultura que é muito determinista: homem não pode fazer isso e aquilo e a mulher também não pode fazer isso e aquilo. Então talvez formate pessoas que não tem nada a ver com o que são na intimidade.

TN: exatamente, e aí se estabelece um padrão que a pessoa tenta seguir e que também não é. Às vezes a pessoa é insegura, tímida. Tem um personagem no seu livro que é varonil, rijo, potente mas é tímido, inseguro ( Evandro).

SL: na realidade ele não é nada disso. Ele é muito sensível, delicado.

TM: as mulheres falam mais sobre esse aspecto subjetivo, mais sensível?

SL: nós mulheres gostamos de conversar, de falar de nós mesmas, de nossas questões. Trocamos muito, aprendemos umas com as outras. Temos rivalidade, temos inveja. Aliás, os homens também têm, mas a deles aparece de uma forma diferente. Nós temos uma abertura emocional maior, sem a menor dúvida.

TM: como é a inveja dos homens?

SL: acho que fica numa coisa de mais rivalidade, que mulher é mais gostosa, que carro é mais bonito. Qual corpo é mais potente, se tem mais dinheiro. O homem entra mais na coisa do poder. E o poder se coloca nessas coisas que falei.

TM: e não vai aí embutida uma crítica?

SL: dos homens? De jeito nenhum. Não tem nada de julgamento. Apenas são relatos. Em todos os meus livros sempre tem o viés da psicanálise, naturalmente, porque eu sou psicanalista. Mas zero de julgamento. Basta ver o meu trabalho. Se uma pessoa vem para se colocar, para se abrir, eu não digo se está certo ou errado. O que eu sei? O certo para mim pode não ser o certo para você.

TM: e somos todos seres complexos, homens, mulheres.

SL: e na literatura eu tomo muito cuidado, zero de moralismo, de julgamento moral.

TM: mas é interessante identificarmos comportamentos até para refletirmos. Tem um dos personagens do seu livro que é casado (Fiodor), sua relação está um tédio, a esposa mais ou menos. Ele gosta de ver as mulheres na novela mas não casaria com uma bonitona daquelas pois daria muito trabalho.

SL: acho que esses a gente encontra na vida. Até dá para reconhecer alguns homens assim.

TM: também existem muitas mulheres que se sentem intimidadas com um parceiro mais bacana do que ela.

SL: e também tem muitas mulheres que têm preguiça. Chega numa certa altura da vida, elas não querem mais nada. Se tiver um casamento tranquilo, mesmo que não seja um relacionamento rico, é sossegado. Vai-se levando.

TM: e tem uma alegria aí? Nesse padrão de um relacionamento estável, sem grandes emoções, sem grandes riscos?

SL: sem dúvida. Se for uma coisa genuína, com amor, ingrediente essencial. Pode não ter aquele entusiasmo do começo de um relacionamento. Mas eu acho que é a amizade que une um casal. Porque atração, tesão, loucura, passam. Mas se tiver amizade, essa é a liga.

TM: tem gente que não sai do primeiro nível, buscar essa emoção….

SL: penso que essa fantasia da emoção, da loucura e dos grandes gestos, é muito mais rica, excitante, fantástica do que a realidade. Como seria o day after da Branca de Neve com seu príncipe encantado, da Bela Adormecida ou de qualquer uma dessas heroínas de conto de fadas?

TM: não existem ilusões que sobrevivam ao dia seguinte. As coisas começam a tomar o seu lugar na realidade.

SL: não dá para viver naquele spinning. Hoje em dia a gente vê casamento que duram pouquíssimo. Por um lado isso é bom porque existe uma procura, talvez mais genuína do que no meu tempo, da minha mãe, da minha avó. Mas ao mesmo tempo, eu vejo uma coisa de muita excitação porque o cotidiano – encontrar a mulher, dar atenção aos filhos, levar na escola, se preocupar com os problemas das crianças, do casamento – dá trabalho.

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/117265/psicanalista-sylvia-loeb-lanca-livro-sobre-univers.htm

 

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Insistir no engano é apostar na infelicidade

Brazilian two ways road sign.Getty Images

 

Quem me acompanha no Facebook deve ter visto que a pergunta sobre por que os homens somem deu muito o que falar. Entre o que foi falado, a carta de uma leitora me inspirou particularmente.

Ela escreve:

“A atitude de um homem que abandona uma relação que “parecia” estar dando certo pode ter alguma similaridade com a atitude de um homem que trai a companheira? Existem situações que podem ser entendidas de várias maneiras. Mas, e se for por pura falta de caráter?”

 Minha resposta:

Penso que um homem que não esteja tendo um relacionamento para valer não só pode sumir, como pode, sim, trair a mulher. Eu não chamaria essa mulher de companheira, pois não é considerada assim por quem está ao seu lado. Se ele finge, mente, engana,  faz promessas que não cumpre, promete amor que não sente, então, é sim um mau caráter. Senão, trata-se apenas de um homem curtindo uma mulher. Ela deve ficar atenta para o que deseja e para o que está recebendo.

Há duas respostas, à enquete, bastante interessantes para a mulher que se interessa pelo assunto:

– “ O relacionamento parecia estar dando certo mas, de fato, não estava.”

“ Elas não percebem os sinais de que não estamos mais a fim.”

Ou seja, eles sinalizam, mas muitas mulheres interpretam erroneamente.

Alguns exemplos:

– O homem sumiu depois reapareceu, sem mais nem menos. Que bom que ele voltou, sinal de que sentiu minha falta!

– Ele não telefona, não se ocupa de mim, não se preocupa comigo. Mas é cedo, quando o relacionamento estiver mais maduro, ele vai mudar.

– Ele não veio porque estava muito cansado, coitado. Eu entendo isso, quando estou muito cansada, só quero ficar de perna pra cima.

– Ele não telefonou porque o celular estava sem bateria. Isso já aconteceu comigo mil vezes!

– Ele não apareceu porque está com problemas com a ex, com os filhos, sabe como é.

– Ele atrasou horas, por causa do trânsito, terrível!

– Ele esqueceu de me avisar pois estava muito ocupado, trabalha demais, coitado!

– Ele não quer sair, disse que estava com dor de estômago, é muito sensível.

– Ele não gosta de sair porque fica muito agitado e tem insônia, coitado, morro de pena de quem tem insônia!

– Ele não gosta de conversar, acha que a gente perde muito tempo discutindo a relação. Sabe com são os homens…

– Ele adora transar comigo, diz que sou a melhor cama que já conheceu! Já pensou? Ele não pode passar sem mim!

– Diz que gosta de uma leoa na cama e de uma dama na sala. Ele morre de ciúmes!

 

Outras falas de muitas mulheres:

– Não vou insistir senão ele vai se sentir cobrado.

– Não vou falar nada senão ele vai achar que sou uma chata.

– Não vou falar nada senão vai pensar que sou carente.

– Se eu insistir, ele vai achar que estou desesperada.

– Melhor não falar nada, senão vai dar briga.

– Ele é super egoísta, o que eu posso fazer?

– Se eu falar alguma coisa, ele vai embora.

E por aí vai…

Que tal abrir o olhos?

Que tal parar de interpretar, que tal parar de tentar entender o que está mais do que claro, que tal parar de ter medo de ficar só, parar de aceitar o que não desejam?

Se o homem está a fim, ele vem, ele comparece, ele faz questão, ele é gentil, ele faz tudo para ser gostado, pois quer você, você tem valor para ele.

Se o homem não está a fim, ele não vem, não comparece, não faz questão, até pode ser gentil, mas não faz questão de agradar nem de ser gostado, pois não quer nada sério com você.

Se for assim, caiam fora, pois o homem quer curtir, sair em boa companhia, uma boa cama.

Quem determina o que quer é a mulher.

Esse homem serve para você?

Ele pode e quer dar o que você deseja em termos de relacionamento?

Se o relacionamento “parece” estar dando certo, abra ainda mais os olhos.

Um dos homens da enquete respondeu: o relacionamento “parecia” estar dando certo. Ou seja, parecia para um dos lados, para o outro não.

Um homem que mente, que engana, que trai pode nos pegar uma, duas vezes, mas depois disso, se você se deixa enganar… é hora de se perguntar por quê.

Pois insistir no engano é apostar na infelicidade.

As mulheres precisam parar de se queixar, parar de se sentir vítimas de homens pavorosos, sedutores, enganadores, falsos.

Se eles são tudo isso, caiam fora.

Ora, e a sedução? perguntarão vocês.

A sedução é uma das armas mais poderosas para atrair a caça.

Portanto atenção: os que estão na caça farão o diabo para conquistar uma mulher. É isso que têm que fazer: ir atrás do que desejam.

E você?

Deseja o quê?

 

 

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“ Por que alguns homens somem quando o relacionamento parecia estar dando certo”?

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Recebi algumas respostas a essa pergunta que postei no Facebook. Veja abaixo as principais e, em seguida, meus comentários.

1 – “O relacionamento tem que dar certo. Do contrário, não há mais o que falar quando deixa de funcionar”.  Comentário: se o relacionamento tem que dar certo, há pouca abertura para as dificuldades que qualquer relação séria enfrenta. Isso é motivo para o homem ir embora sem avisar?

2- “A mulher também deve se perguntar por que não deu certo”.  Comentário: sem dúvida. Com certeza a mulher se pergunta demais por que o relacionamento não deu certo. Ela imagina mil e uma situações, perdoa seu homem outras tantas e, na maioria das vezes, sente-se culpada pelo que aconteceu. Isso é motivo para o homem ir embora sem avisar?

3- “Temos que ter uma visão de 360 graus”.  Comentário: uma visão de 360 graus é impossível para o ser humano. Exigir isso de si é um caminho rápido para o fracasso, para o mal-estar e para sentimentos de culpa. Isso é motivo para o homem ir embora sem avisar?

4 – “Elas ficam chorando e pedindo explicação”.  Comentário: quando a mulher chora, muitos homens sentem-se imediatamente culpados e a maioria acha melhor ir embora do que enfrentar a situação. Ao invés de perguntar: “você está chorando por que? Qual a queixa?” E a sua parte nessa confusão? Como muitos deles não querem esticar a conversa, o saldo é sentirem-se mal e cheio de ressentimentos em relação à mulher. Isso não é um tribunal. À sua frente está a mulher que você ama, ou amava. Isso é motivo para ir embora sem avisar?

5- “As mulheres falam muito”.  Comentário: sim, muitas falam muito. Você não percebeu antes de começar a se relacionar? Isso motivo é para ir embora sem avisar?

6- “Elas não percebem os sinais de que não estamos mais a fim”. Comentário: muitas percebem, sim, todos os sinais. O problema é que algumas fingem para si mesmas que não percebem, pois valorizam demais o relacionamento. Muitas não suportam a ideia de ficarem sozinhas. Isso é motivo para o homem ir embora sem avisar?

7- “Elas estão muito agressivas, vêm com tudo para cima da gente.”  Comentário: hoje em dias muitas mulheres se comportam desse modo achando que é a hora da revanche. Estão apenas agindo feito homens, exatamente do que se queixam. Isso é motivo para ir embora sem avisar?

8 – “Tem muita mulher idiota, inconsequente, que topa qualquer parada”. Comentário: Tem mesmo. Isso é motivo para ir embora sem avisar?

9 – “Elas querem mudar a gente”.  Comentário: querem sim; elas se apaixonam, mas querem melhorar o outro, sem se dar conta que ninguém muda ninguém se o outro não quiser. O mesmo serve para vocês: casaram com uma mulher com tais e quais qualidades, entre as quais, ser mais independente. Aí vocês resolvem que ela deveria mudar, ficar mais sossegada, por exemplo. Isso é motivo para ir embora sem avisar?

 

Pelas respostas podemos perceber que há muito descompasso entre homens e mulheres.

Muitos desejam mulheres que lhes sirvam sob medida, belas, amorosas, e se possível, caladas.

Muitas delas desejam homens que lhes sirvam sob medida, fortes, viris e que conversem, conversem, conversem…

Homens e mulheres são seres muito diferentes, não só fisicamente, mas psicologicamente, emocionalmente, socialmente.

Homens e mulheres se atraem justamente pelas diferenças.

Homens gostam de mulheres para namorar, a não ser que sejam atraídos por outros homens.

O mesmo se dá com as mulheres: elas gostam de homens justamente porque são diferentes delas, a não ser que sejam atraídas por outras mulheres.

Penso que a maioria de nós, independente da orientação sexual, procura amor, companhia, compreensão, carinho.

Se não aprendermos a tolerar as diferenças, esse laço almejado não se constitui.

O outro é outro; não existe alma gêmea; a mesma diferença que nos atrai no início do encantamento, é a pode nos separar, quando surge a desilusão.

Fugir dos impasses é mais fácil; acontece porém que o mesmo impasse pode aparecer em outro relacionamento, e pular de um para outro, talvez seja a solução, para alguns…

Perguntas que podemos nos fazer e que talvez ajudem para os que desejam um relacionamento duradouro:

– essa pessoa serve para mim?

– fico feliz ao lado dela?

– vale a pena tolerar algumas diferenças?

– o saldo é positivo?

– a maior parte do tempo me sinto feliz ao lado dela?

– ela cabe em meus projetos de futuro?

Não podemos esquecer que o outro é o outro, assim como cada impressão digital é uma e só uma, particular.

Cada um de nós é um, uma subjetividade única, que procura o outro para compartilhar a existência, ou momentos dela, nesse longo trajeto que é a vida.

 

 

 

 

 

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Para onde vai o amor quando o relacionamento acaba?

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A essa pergunta, que postei no Facebook e no IG, recebi várias repostas.

Reproduzo abaixo um resumo:

– vira ódio/ doença, oscila entre amor/ódio

– vira amor próprio

– dá espaço para outros amores

– vira amizade e reconhecimento por tudo que viveram

 

Vinicius de Moraes fala disso em sua canção, O amor em paz*:

“porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”

Para onde foi o amor? Acabou? Acabou tudo?! Os projetos, a alegria, a paixão, as promessas, para onde?

Que lugar é esse onde só há ódio, indiferença, malquerer… Que invasão é essa de pensamentos tenebrosos, negativos, destrutivos?

Que lugar é esse onde só há tristeza, lágrimas, desesperança, desamparo, solidão?

Alguém morreu?

Sim, algo morreu. Morreu o amor que nos unia; o fio que nos ligava, partiu-se.

 

Um cemitério de amantes abandonados pelo amor.

 

Como lidar com essa dor? Como lidamos com a morte?

Só pelo luto.

Só pelo trabalho do luto, nos diz Freud.

Sim, trabalho.

O luto é a perda de interesse pelo mundo externo, o afastamento das atividades normais da vida, inibição da vontade, desejo de estar perto do objeto que foi perdido.

Qual o trabalho que o luto realiza?

A realidade mostra que o objeto amado não existe mais, que é necessário retirar todos nossos desejos, expectativas e projetos que estavam depositados no outro.

Pouco a pouco, com muita dor, esse desligamento é realizado, pouco a pouco nos damos conta de que perdemos o objeto de amor.

Pouco a pouco, tudo o que estava depositado lá, volta para nós.

O trabalho de luto é um mergulho fundo na tristeza e na dor.

Um mergulho corajoso na reflexão, na aceitação da realidade: o objeto foi perdido.

Na coragem e no esforço para sair de uma posição de vitimização, pois é mais fácil ficar com as  queixas e lamentos do que enfrentar a realidade: aquele amor, acabou.

E agora, como você se posiciona diante desse fato?

Um mergulho necessário, fundo e intenso, para podermos emergir e voltar para a vida.

 

Recomendo dois filmes, dois destinos para o amor perdido:

– O Amor, de Roberto Rossellini, com Anna Magnani

https://www.youtube.com/watch?v=78KPiLDxfFo

 

 – Villa Amalia, de Benoit Jacquot, com Isabelle Hubert

http://tinyurl.com/muejvte

https://www.youtube.com/watch?v=J_r7hAk5HK0

 

* https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/87200/

 

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Lingerie

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Parado diante da vitrine de lingerie, um velho, bermuda encardida, camiseta amarrotada, barriga proeminente, apesar de magro. Boné, óculos escuros, havaianas e um cachorro vira-latas na coleira completavam a indumentária. Olhava com atenção as peças expostas, não arredava o pé de lá. O cachorro esperando, habituado. De vez em quando abanava o rabo devagar, varrendo a poeira da rua.

O senhor me desculpe, bom dia. O homem me olhou de cima pra baixo. Quer vender o quê? Não quero comprar nada. Desculpe, não é isso, não estou vendendo nada. Sou psicanalista e escritora e estou recolhendo depoimentos de pessoas…De pessoas o quê? Interrompeu ele. De pessoas que parecem morar sozinhas. Está tão na cara assim que moro sozinho? Você é esperta. O que quer saber? Escapei do perigo de ser mandada embora, ele estava curioso.

Como é sua vida, como foi sua vida, profissão, se já amou… Mudou o peso de uma perna para outra, sim, já amei muito. O cachorro levantou-se espreguiçando, se esticando todo, bocejou sonoramente. Os carros na avenida, ônibus, fumaça, buzinas. O senhor não quer tomar um café, ali mesmo tem uma padaria, vamos até lá? O homem me olhou, novamente avaliando. Na padaria? virou-se para a vitrine de lingerie, olhou longamente, deu um suspiro, vamos. Café? Pão de queijo, sanduíche? Ele queria tudo e mais uma cerveja, mais uma e mais uma ao final da conversa.

Incomoda-se se eu gravar? Wilson, me chamo Wilson da Rocha, tenho 72 anos, viúvo há 12 . Gostava da minha mulher, casei cedo, aos 22 anos, naquele tempo era assim. Engravidou antes do casamento, nasceu Antônio, tem 37 anos e a menina, 35. Uma vida dura, de trabalho, trabalho- casa, trabalho- problemas, trabalho- pouco dinheiro, trabalho- trabalho, arranjei outra mulher, uma amante, naquele tempo a gente falava assim, hoje, todo mundo tem um caso, a minha não era caso, era amante. Ela gostava muito de lingerie, tinha de todas as cores, vermelha ou preta, quando queria me seduzir, me conquistar de novo; branca, quando queria brincar de noiva, rosinha claro, de menina moça, azul claro também, lilás adolescente, amarelo, menina virgem. Eu tinha que adivinhar, cada cor era um encontro, uma festa se eu acertava, outra festa se eu errava. Aí tinha que pagar prenda, não era presente não. Tinha que implorar que me perdoasse, ela fingia ficar amuada, naquele dia não tinha sexo. No dia seguinte eu voltava com flores, ela de lingerie facinha de adivinhar, rosinha claro, de menina moça, azul celeste, de paz.

Levantou, lágrimas nos olhos, desculpe, não posso mais.

O cachorro esticou o corpo, preguiçoso, foi atrás do dono.

Seu Wilson, seu Wilson, espere um pouco, quando vou ver o senhor de novo?

Não respondeu. Saiu arrastando os chinelos, atravessou a rua, parou diante da vitrine de lingerie.

 

Lá vem o seu Wilson de novo, disse Vilma, que o atendia sempre.

Deixou o cachorro fora, ele já sabia o lugar de esperar o dono. Abanou o rabo devagar, deitou com a cabeça entre as patas, curioso com o movimento da rua.

De que cor vai ser hoje?

Cinza, tem que ser cinza.

Vilma entrou no estoque , cinza, cinza, numeração média e com rendas, cinza…

Aqui seu Wilson.

Ele pegou a calcinha, levou ao nariz, aspirou fundo, tirou os óculos, cerrou os olhos, aspirou novamente, uma lágrimas escorreu devagar, ele enxugou com a calcinha cinza. Vilma fez que não viu. Posso sentar? Pode seu Wilson, vem pra cá, neste provador ninguém entra.

A calcinha ainda no rosto, o sutiã pendurado balançando na mão enrugada. Tirou o boné, sentou-se no banquinho de madeira,  aspirando o aroma do soutiã. Vilma fechou a cortina do provador. As outras vendedoras riam, se a gerente chegar você vai ser despedida. Vilma não respondia.

Seu Wilson saiu do provador, calcinha e sutiã na mão estendida, obrigado Vilma.

 

Encontrei seu Wilson três meses depois, no mesmo lugar, diante da vitrine. Tinha mudado de aparência, bermuda nova, tênis em vez de havaianas, a barriga, sumido, os mesmo óculos, um boné novo. Coleira nova para o cachorro. Dez anos mais moço.

Vamos tomar um café seu Wilson? A minha vida uma festa, a minha vida uma tristeza. Chegou a idade da aposentadoria, o dinheiro começou a rarear, os filhos saíram de casa, graças a deus, não me custavam mais nada, só a esposa, a sagrada esposa que eu não queria machucar, mas ela sabia, sabia que eu tinha alguém, mulher é muito esperta, jamais perguntou, acho que era para não ouvir o que eu ia confessar. Ficou doente, morreu do coração, infarto fulminante. Difícil mulher morrer de infarto, mas parece que hoje em dia até isso elas estão conseguindo. Aí eu quis morar com minha amante. Tinha orgulho em dizer isso, minha boca se enchia. Eu também me enchi de ser sua amante, me disse ela com a boca cheia. Você pensa que sou o quê? Uma vadia? Todos esses anos desfilando de lingerie para nada? Como para nada? Eu quero morar com você, isso é nada? E as brincadeiras, as adivinhações, os castigos, as prendas a pagar? Você não percebeu que eu não queria mais? Como ia perceber se você não falou?! E assim as brigas começaram, os desentendimentos, a mulher linda que era a minha amante, um dia olho e vejo uma mulher feia. Estava igual, o corpo bonito, as lingeries coloridas dando sinalização conforme o clima, mas ela ficou feia, muito feia.

Por que será que ela não quis casar com o senhor, perguntei. Eu não falei que queria casar, eu falei em morar junto. O senhor não queria casar? Não, eu só queria morar junto. Se casasse com ela, perderia a minha amante.

Isso era tão óbvio, que não quis mais conversar comigo. Quer mais alguma coisa? Não, obrigada. Pagou o café, o meu e o dele e foi para a frente da vitrine, o cachorro junto.

Vilma sorria na entrada da loja, com uma lingerie vermelha nas mãos.

 

 

 

 

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